
Sempre gostei de brincar e, consequentemente, de brinquedos. Como fui filha única quase até aos 13 anos (tempos abençoados!), aprendi a brincar sozinha e nunca me fartava ou aborrecia dos brinquedos que tinha. Lembro-me dos meus legos, dos meus puzzles, dos meus livros de histórias infantis e de colorir, dos estrumfes (lembram-se?), da minha bicicleta com o cestinho à frente. Mas do que eu gostava mais, era mesmo das minhas bonecas, especialmente daqueles chorões - ou carecas, como eu lhe chamava - por serem os mais parecidos com bebés verdadeiros. Escolhia-lhes um nome, fazia-lhes roupa, dava-lhes banho, dormia com eles. Eram simples bonecos com cabeça, pernas e braços de borracha e corpo de pano. Não falavam, riam ou faziam chichi mas a minha imaginação de criança dava vida aos seus corpos inanimados.
A minha irmã nasceu uns anos mais tarde, já na década de 90. Lembro-me das caixas enormes de brinquedos que ela tinha, muito diferentes dos meus. Não teve um chorão ou um barriguita, como eu. Nunca gostou muito de legos ou de puzzles. Mas tinha bonecas muito mais “reais” do que as minhas, daquelas que dizem “mamã” e choram. E eu, que nem sou muito saudosista, depois de conhecer algumas das suas bonecas, dei por mim cheia de saudades do meu velho chorão, com a cabeça toda escura por causa da papa de terra e água que eu lhe dava (o mais parecido com Cerelac que conseguia fazer).
Lembro-me, em particular, de dois brinquedos dela. Imaginem o primeiro: uma boneca do tipo Barbie, cabelo loiro platinado, com caracóis, um top a tapar umas grandes mamas e uns mini calções. Estão a imaginar? O que é que vos faz lembrar? Pois, a mim também: uma puta, daquelas que “varrem” as esquinas e cobram 30 beijinhos pelos 3 pratos. Como se não bastasse o seu aspecto, quando lhe apertávamos a barriga, ela dizia: “Oi, tudo bom? Vamo brincá dji boneca”? Ou seja, não só tinha ar de pega como, ainda por cima, fazia um convite à descaradona. Muito pouco didáctico…
O outro brinquedo do qual vos quero falar era bem mais fofinho – um Furbie verde alface, com a barriga branquinha. Mas, tal como a boneca que vos descrevi, também falava. E em português do Brasil!! O que me leva à minha primeira interrogação: porque é que os bonecos que falam o hão-de fazer em português do Brasil? Como se não bastassem as telenovelas e as músicas que nos invadem os olhos e os ouvidos a todo o minuto… E também este boneco, o tal Furbie, dizia coisas inteligentes como: “Hmmm… nossa, eu, com fomi, ó, ó”; “Gostoso, acabou? Não, não, não? Ó, ó”; “Dói-dói barriguinha”; “grrrrrrrrrrrrrr, uuuuuuuu, grrrrrrrrrrr, uuuuuuuuu” (antes de dormir).
Conclusão 1: até aos bonecos se aplica a velha máxima: “Mais vale ficar calado e passar por parvo, do que abrir a boca e confirmar essa ideia”.
Conclusão 2: Há, cada vez mais, a tentativa de sexualizar as bonecas (lembrem-se da loira platinada que vos descrevi). Dois exemplos actuais: a Leopoldina, uma ave inocente, este ano perdeu as asas e ganhou uns braços e alguns contornos. Também a Popota, a doce hipopótamo, ganhou umas curvas lânguidas, que maneia ao som de uma música conhecida. O que me faz concluir que, mais do que nunca, os bonecos são pensados não para as crianças, mas sim para os adultos. Sim, porque nós também gostamos de brincar!
Vejam lá se isto não vos parece familiar:
- “Vamo brincá dji boneca?”
- “Não, não, não, ó, ó. Dói-dói barriguinha!”
Pois...de facto quem nao gosta de brincar...
ResponderEliminarbj
Eu ainda tenho o furby e a barbie!!!
ResponderEliminar"Nhmmm, nossa, eu com fomi" xD