Todas as cores do mundo

Sozinha. Todas as viagens têm um destino. Todos os destinos têm um fim. Talvez alguns de nós se percam nesse entretanto. Não sei como cheguei até aqui. Para dizer a verdade, nem sei se cheguei. Dizem que sim, eu não me recordo. Há memórias que nos deixam, como se nós fossemos demasiado pesados. E vamos assim ficando para trás, parados, agarrados ao nada. Sem memórias, sem vida, sem nós.

A vida separa-nos, sempre. É a morte que nos une. Em nenhuma outra ocasião conseguimos reunir tanta gente como na nossa morte. A vida separa-nos. Talvez andemos demasiado ocupados para notar. E vamos assim traçando caminhos paralelos, que de tão nossos, se tornam de ninguém. Vazios.

A minha viagem começou em 1979, na Cidade do Cabo. O destino era, então, desconhecido. Gosto de recordar os cenários da minha infância, onde a vida se traduzia em muitas cores e formas. Onde o tempo não existia. Na verdade, penso que o tempo não existe. Nós é que existimos no tempo. Quantas vezes deixamos de dizer coisas importantes, por andarmos demasiado apressados? Um “Gosto de ti”, “Obrigada”, “Desculpa”. Quantas vezes nos exilamos dentro de nós, longe de nós? A existência de passado/presente/futuro é apenas um elo de uma cadeia de recordações. O passado é uma mera lembrança, não existe na realidade. O presente, de tão próximo, torna-se numa breve recordação. Também não estou certa que o futuro exista; penso que é apenas uma ideia na nossa cabeça, um modo de alimentarmos sonhos, que nos permitam viver o presente.

Gosto de recordar a minha infância, uma época feliz, onde eu ainda me pertencia. Lembro com saudade a casa branca, erguida entre as montanhas e o mar. Aquelas paisagens, pintadas por uma qualquer mão divina. Volto a ver a laranjeira, com um baloiço em corda, feito pelo meu pai. E as brincadeiras que se prolongavam até depois de o sol se pôr. Vejo os verdes vinhedos, emoldurados por montanhas cor de malva. E do alto da Table Mountain, o mundo parecia-me demasiado grande. E nele cabiam todas as cores.

Reencontro a avó Rosa. Sentámo-nos no chão, defronte à lareira e ela fala-me da vida. Ela sabe tudo sobre a vida.

- O que é a amizade, avó?

- Um amigo é um tesouro. A amizade talvez seja o sentimento mais importante do mundo, porque não brota da felicidade, mas antes de um momento de solidão, quando tudo parece perdido. Um amigo é aquele que está presente, quando todos se ausentam. Não é aquele que evita que tu caias, mas o que te ampara a queda, não é o que te impede de chorar, mas o que te limpa as lágrimas. Não se ri de ti, ri-se contigo. A amizade não depende da idade, da cor de pele ou do sexo. É um sentimento que se basta a si mesmo, por isso não depende de nenhum outro factor externo. Nunca procures a amizade, deixa ser ela a encontrar-te. E depois alimenta-a, senão ela morre. E – lembra-te – tu deverás ser a tua primeira amiga. Porque só quando a semente da amizade germinar em ti, poderás fazê-la crescer cá fora, onde o mundo por vezes pode ser cruel.

Hoje, apenas os retratos me permitem ter a certeza que cada um desses rostos existiu. Porque quando nos tornamos demasiado pesados, as memórias partem. E então, sem memórias e sem esperança, ficamos na mais absoluta solidão. E o mundo vai-se tornando cada vez mais pequenino, e todas as suas cores parecem desaparecer.

Gostava de observar a avó Rosa a pintar. Era capaz de ficar horas a olhar para ela. Os seus cabelos castanhos, impecavelmente desalinhados, os olhos cor de amêndoa, que denunciavam toda a sua sabedoria, a voz doce, o seu cheiro a baunilha… Sim, ela era a mulher mais bonita do mundo. Quando ela pintava, não se conseguia perceber nenhum outro movimento para além desse. Tudo à sua volta parava, como que a contemplá-la.
- Avó, o que estás a pintar?

- Um quadro com todas as cores do mundo. Somente através da arte podemos sair de nós mesmos. A arte torna-nos eternos, permite-nos viver para além do tempo, renunciar ao esquecimento. Apenas a arte permite atribuir sentido à eternidade de um povo, torná-lo único. Quando eu morrer, os meus quadros irão continuar a viver por mim. O meu rosto, os meus gestos, o meu cheiro continuarão para sempre vivos. Quando pinto, não vejo um único mundo, de uma só cor; nele cabem todas as cores. Um dia, também tu pintarás um quadro com todas as cores do mundo.

O amor é um lugar estranho

Se escrevermos a palavra “amor” no Google, aparecem-nos 36.200.000 resultados. Nem a palavra “sexo” consegue superar este número.

Amor. O amor. Inspira poetas e amantes. Embala-nos em suaves melodias. Emoldura os nossos sonhos. Amor. O amor. É paz aguerrida. É uma arma sem balas. É uma luta sem vencidos nem vencedores. O amor. Transforma-nos. Ilumina-nos. Faz-nos caminhar, sem caminho. Faz-nos chorar e rir, tudo ao mesmo tempo. Sem sabermos porquê. Amor. O amor. Embriaga os sentidos e aprisiona a razão. Faz-nos voar, sem asas. Atira-nos ao chão. O amor. É tempestade, é calmaria. Tudo ao mesmo tempo e em tempos diferentes. Amor. É dor e prazer. Lágrimas e sorrisos. Suspiros e sufocos. O amor. Enlouquece. Inebria. Queima. Amor. Torna palavras como “nunca” e “impossível” difíceis de pronunciar. Por ele cruzamos mares e movemos montanhas. Esquecemos o orgulho e a razão.

O amor não é para ser pensado. Pensar mata o amor. O amor vive-se. O amor é vida. Amar é tão necessário quanto respirar. Aqueles que não são capazes de amar, são os que já morreram mas ainda não sabem.

O amor é tudo isto. E ao ser tudo, é nada. É contradição. É o oposto de si mesmo. Há quem esteja apaixonado pelo amor. Há quem ame o ódio. E quem odeie o amor. O amor nunca é indiferença. Toca-nos. Faz-nos questionar as nossas certezas. Abana as nossas convicções. Dá-nos vontade de correr. Para algum lugar. Para lado nenhum. Ir. Simplesmente ir. Nem sempre regressar.

O amor é um lugar estranho. Mas é exactamente o lugar onde me quero perder. Não escolheria outro. Amor. O amor. Tu.