Esta noite

sonhei contigo. Estávamos em minha casa, à janela, a ver o mar. Disseste-me que nunca tinhas visto um mar tão azul e eu respondi-te que naquela janela havia um lugar para ti. Abraçaste-me e naquele abraço não havia espaço para palavras. Fiquei feliz por teres escolhido ficar, não sabia se pelo azul do mar, se pela escuridão da minha alma, mas estavas ali, estarias ali, e aquele lugar não teria de esperar mais por ti.
Desculpa a minha má educação, olá, como tens passado? Eu estou bem, continuo a tratar das minhas feridas, mas suspeito que isto seja crónico. Fazes-me falta, ao menos sei que entendes a escuridão como eu. Foi pena teres que partir, podias ter-me levado inteira, em vez de me deixares em pedaços. Às vezes visitas os meus sonhos. Entras e sais devagarinho, silencioso, penso que para não me acordar. Mas nestes breves encontros, dizemos tanta coisa… É engraçado como sempre comunicamos melhor sem palavras. Nunca foste bom com elas, ou falavas quando te devias calar, ou calavas-te quando devias falar, ou dizias a palavra certa no momento errado, ou a palavra errada no momento certo. Nunca te entendeste muito com as palavras, é bem verdade. Penso que é por isso que agora me visitas em silêncio e carregas tudo o que me queres dizer num abraço apertado. E eu ouço-te. Sem interferências.

O mar continua azul, eu continuo aqui, e tu, onde estás?