Desassossego

Penso que há pessoas que têm tanto dentro de si, que se sentem vazias. É como ter um mapa cheio de caminhos e ficar parado no meio da estrada, sem saber bem qual escolher.

(Temos que escolher?)

No meio da estrada faz frio

(sabias?),

mas avançar não é alternativa. Não estás bem ali, mas ir para onde?

(Penso muitas vezes em ti. Os dias de espera e de ausência matam-me. Enquanto me faltas, eu não me basto.)

Há dois tipos de pessoas: as que estão cheias de nada e as que estão vazias de tudo. E depois existo eu: cheia de tudo. Menos de ti.

(Dou por mim a pensar se algum dia chegarás, se as minhas palavras alguma vez te mostrarão o caminho de volta. Ou um caminho qualquer, desde que chegues.)

Continuo a sonhar repetidamente com o mar. Um mar revolto, de ondas gigantes.

(Até os meus sonhos já perderam a novidade.)

Perguntam-me muitas vezes se estou bem. Não gosto muito desta pergunta, porque na realidade o que as pessoas esperam é que se diga que sim, que está tudo bem, para depois voltarem às suas vidinhas com a sensação de que tudo está nos seus sítios. Ou pelo menos, pareça estar. Seja como for, respondo sempre que sim. Ou então que vou andando para não me sentir tão mal com a minha mentira.

(Estás atrasado, e por isso estou um bocadinho zangada contigo. Mas não te preocupes, isto passa assim que chegares. Vais chegar?)

Gostava de ser mais mundana. De sentir prazer,

(um bocadinho de satisfação, que fosse,)

com aquelas pequenas coisas do dia-a-dia.

(O que importa é ter saúde e trabalho, não é?)

Mas tudo me aborrece.

(Menos tu – não te esqueças que estás atrasado.)

De manhã levanto-me,

(depois de sonhar com o mar,)

o dia começa, tudo à minha volta gira, e eu ali, parada. Os meus pensamentos a voar e eu ali, sem me conseguir mexer.

(Também te acontece?)

Penso que se esqueceram de me ensinar a fingir. Talvez assim eu me enquadrasse melhor. Sem grandes reflexões,

(que caminho seguir?),

apenas caminhar. Para qualquer lado, com qualquer pessoa. O que importa é ir.

(É assim que se diz?)

Ir. Ou pelo menos fingir que ia, que não sou de pedir muito. Mas não. Parada, sempre este desassossego.

(E sempre aquele mar revolto, de ondas gigantes, que até os sonhos me aborrecem. Tudo me aborrece. Menos tu).

(Mas não te esqueças que estás atrasado).

2 comentários:

  1. com textos desta categoria, este blogue devia ser actualizado mais amiúde... :)
    nem durmo por causa disso!...

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    1. Neste momento, as ideias não cabem no "papel". E também não me deixam dormir (e talvez também me façam engordar). :)

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