"Aquele era um romance improvável. Um romance que não poderia ser lido, posto que ninguém até então o havia escrito. Um romance que não poderia ser inventado, posto que até então ninguém sequer o havia imaginado. Um romance que não poderia ser vivido, posto que só podia ser sentido. Embora a sombra que o acompanhasse fosse de um gigante, desses que com um só toque poderia derrubar toda uma cidade, ele era só um menino e tinha frio. Usei a minha própria pele para cobri-lo. Habituei-me tanto a inexistir, que já não tenho a ilusão de pedir que eu fique em ti como ficaste em mim. No meio da escuridão, haveremos de lembrar que há sempre uma claridade invisível a preencher, em nós, todos os espaços que julgávamos vazios. Deitaremos, dormiremos e acordaremos sabendo que sonhar é, ainda, a única realidade possível.
Olho para a sombra que agora se afasta e, como se fosse um flash, a tua imagem permanece em negativo no filme que rebobino na minha mente. Guardo-a na memória por alguns instantes, para que eu possa, talvez, quem sabe, revelar mais tarde. Fecho os olhos como se quisesse e pudesse emoldurar os sons, as cores e o perfume de todas estas paisagens que em mim inauguraste. Uma gota de orvalho, ainda quente, coalhou nos meus lábios. Este outono está rascante, áspero, seco. Passei a tarde a ver as árvores balançarem. Os ventos são os melhores mensageiros que conheço.
Eu amei um pássaro. Queria pedir-te p'ra pousar. Decidi pedir-te p'ra voar."
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