Para a minha avozinha

Quando eu for velhinha, bem velhinha, gostava de poder dizer aos meus netos tudo aquilo que a minha avozinha me ensinou. Uma avó é uma pessoa adulta que tem tempo para nós. Que nos ouve, que nos repreende quando é necessário, que é o nosso escudo. Uma avó não nos dá conselhos, partilha experiências de vida. Histórias. Boas e más. Erros e lições. E são esses testemunhos que dão uma certa constância à nossa existência. Que nos confortam nos momentos mais frios, porque sabemos que não estamos sozinhos e que o sofrimento faz parte da vida, tal como o sangue corre nas nossas veias. Porque sabemos que por mais longa que seja a noite, o sol nasce sempre na alvorada, independentemente da nossa vontade.

A minha avozinha ensinou-me muitas coisas e não passa um único dia sem que eu me lembre dela e da falta que ela me faz. Dizia-me assim:

- Se te casares, que seja por amor. Nunca por amizade ou estatuto. Na tua escolha, confia no teu coração e desconfia da visão. E, por favor, casa com um homem que te faça rir.

- Quando te sentires perdida, pára e ouve o teu coração. É ele quem te deve guiar. É ele a tua bússola. É o teu coração que te vai permitir avançar, mesmo quando parece não haver caminho.

- Nunca deixes de acreditar na magia e em contos de fadas. Se te chamarem de tonta, não te preocupes. Há pessoas que já perderam a capacidade de sonhar. Essas pessoas são aquelas que já morreram mas ainda não se aperceberam.

- Sê livre. E lembra-te sempre que a pior prisão é aquela que é construída por nós próprios. E que há pessoas que vivem em prisão perpétua, com a chave na mão.

- Nunca deixes de dizer a uma pessoa o quanto a amas, com medo de pareceres ridícula. Ridículo é não sentir. Mas nunca digas a uma pessoa que a amas se isso não for verdade. Há palavras que têm que ser manuseadas com cuidado. As palavras são as armas mais mortíferas que existem.

- Confia, mas mantém-te alerta, como um soldado em vigília. Nem tudo o que te dizem é verdade. Se tiveres dúvidas, guia-te pelas acções dessa pessoa, e não pelas suas palavras. É mais fácil mentir com a boca do que com o corpo.

- Se tiveres que lutar, luta. Não tenhas medo da derrota. Ela magoa, dói. Mas pior do que ser derrotado é dar-se por vencido antes de lutar.

- Dá-te. Não te feches numa conchinha, com medo da vida. Viver é rir e chorar. É ganhar e perder. Nem sempre te vais sentir bem. Às vezes vais sentir frio, muito frio. Nunca deixes que ele congele o teu coração. Um coração congelado é um coração morto. Um coração morto não nos serve para nada, é como uma âncora que nos prende a um sítio escuro e sombrio, com umas vistas fabulosas. Longe, lá ao longe…

- Nunca penses no que deixaste de fazer, mas naquilo que ainda tens para fazer.

- Nunca digas: “Se eu soubesse…” Procura sempre aprender com os erros. Não existe corrector para os erros que cometemos, mas podemos sempre virar a página e começar de novo.

- Inventa a tua história. Não vivas a história dos outros. Escolhe as personagens, o enredo e faz o teu final. Feliz. Sê feliz, minha querida.

Obrigada avozinha. Estarás para sempre no meu coração. Quando me sinto triste, olho para o céu e sei que tu estás lá, algures, a olhar para mim. Por mim. Um beijinho do tamanho do mundo para ti.

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